O modelo chinês: empreender resolvendo problemas grandes, com a ciência do lado

Já falamos aqui de Israel, a Start-Up Nation: um país pequeno, sem recursos naturais e cercado de ameaças, onde “inovar é uma questão de sobrevivência”. A China é quase o oposto: escala gigante, um Estado que planeja em décadas e uma aposta na ciência aplicada que não se vê em nenhum outro lugar.

Quando comentei aqui o livro Bilhões de Empreendedores, de Tarun Khanna, a conclusão foi que não existe um caminho único para gerar um ambiente empreendedor: China e Índia chegaram longe por caminhos opostos. Sete anos depois, sigo pensando o mesmo. Mas os modelos, por mais diferentes que sejam, respondem à mesma pergunta, que vale para qualquer empreendedor: qual é o tamanho do problema que você está tentando resolver?

O pano de fundo, em um parágrafo

Desde meados da década passada, a China trata inovação e empreendedorismo como projeto nacional, e não mudou de direção. Em 2015, um parecer do Conselho de Estado levou cursos de inovação e empreendedorismo a todas as universidades. Depois de 2022, veio a virada para a tecnologia “dura”: chips, baterias, robótica, biotecnologia, IA. Em dezembro de 2025, entrou em operação um fundo nacional de venture capital que pode chegar a 1 trilhão de yuans, com prazo de 20 anos, o dobro do ciclo de um fundo tradicional. Em 2025, o país investiu 2,8% do PIB em pesquisa e desenvolvimento e foi, de novo, o que mais pediu patentes internacionais no mundo.

Ninguém vai copiar isso. O que interessa aqui é outra coisa: o que as empresas que nasceram nesse ambiente ensinam para quem empreende em qualquer lugar. Eu vejo quatro lições.

Lição 1: escolha um problema do tamanho de uma sociedade

Em Bold, Peter Diamandis e Steven Kotler defendem que “os grandes problemas da humanidade abrigam as maiores oportunidades de negócios para o futuro”. As empresas de tecnologia chinesas que mais chamam atenção parecem ter levado a frase ao pé da letra. Não estão fazendo o enésimo aplicativo de delivery. Estão atacando gargalos estruturais.

Educação. Como dar atenção individual a cada aluno numa sala com quarenta? A iFlytek, que nasceu como empresa de reconhecimento de voz, levou seus modelos de IA a mais de 50 mil escolas, com correção automática e um mapa das lacunas de cada estudante, matéria por matéria. A WhalesBot, de Shanghai, faz robôs educativos para ensinar programação e IA a crianças e, segundo a empresa, já vendeu mais de 1 milhão de unidades em 81 países.

Saúde. Na China, o gargalo é a atenção básica: há muita gente para poucos clínicos gerais. Em 2017, um assistente médico de IA da iFlytek passou na prova escrita do exame nacional de licença médica, com 456 de 600 pontos. Hoje, esse assistente apoia médicos em mais de 73 mil unidades de atenção básica.

E houve uma ideia ainda mais ousada: a clínica do tamanho de uma cabine telefônica. Em 2018, a Ping An Good Doctor lançou as “One-Minute Clinics”, cabines sem funcionários, de uns três metros quadrados. Dentro delas, um “médico de IA” conversa com o paciente, levanta o histórico e propõe um diagnóstico. Um médico de verdade revisa tudo por vídeo, e o remédio sai de um armário inteligente com mais de cem medicamentos comuns. No começo de 2019, a empresa já tinha contratos para quase mil cabines em oito províncias e cidades, inclusive dentro de um campus universitário em Shanghai.

Um detalhe que conta muito: desde 2022, as regras nacionais de diagnóstico online proíbem que a IA gere receitas sozinha. A IA faz a triagem e prepara o caminho; quem assina é um médico. Agora a mesma lógica está indo para o celular: em 2025, a JD Health lançou um “hospital de IA” com clínicos gerais, farmacêuticos e nutricionistas virtuais. Não substitui o médico. Ajuda a resolver a fila.

Lembra do Pad-Man, o mecânico indiano que inventou uma máquina barata de absorventes? Saúde é dos lugares onde um problema enorme e mal resolvido vira oportunidade para quem tem coragem de encará-lo.

Energia. A BYD começou em 1995 fabricando baterias de celular. Em 2025, entregou 4,6 milhões de veículos e é apontada como a maior fabricante de carros elétricos do mundo. O país inteiro foi junto: no fim de 2025, a capacidade de energia eólica e solar passou, pela primeira vez, a das térmicas.

Segurança pública e indústria. A Hikvision, fundada em 2001 em Hangzhou, é uma das maiores fabricantes de câmeras de vigilância do mundo. Nas cidades, suas câmeras inteligentes fazem parte da infraestrutura de segurança pública. Fora delas, o mesmo olho virou ferramenta industrial: câmeras térmicas, visão de máquina para controle de qualidade e sistemas para mineração que acompanham pessoas e veículos no subsolo, monitoram esteiras e detectam incêndios. É também uma empresa no centro de uma disputa. Desde 2019 está na Entity List do governo americano, que a acusa de participar da vigilância de minorias na região de Xinjiang; a empresa nega. Seus equipamentos também estão proibidos nas compras do governo federal dos EUA, e novos modelos não recebem autorização para venda no país desde 2022.

O ponto para o empreendedor: problemas grandes têm cliente grande, e às vezes o cliente é o próprio Estado. Isso dá escala. E também cobra: quem resolve problema público entra no debate público, com regulação, política e geopolítica junto.

Lição 2: trate a ciência como sócia

Várias dessas empresas nasceram dentro de um laboratório. A iFlytek foi fundada em 1999 por um doutorando da Universidade de Ciência e Tecnologia da China e sua equipe de pesquisa, a partir do primeiro sistema de síntese de voz em mandarim que eles tinham desenvolvido. A universidade continua acionista até hoje. A Universidade Tsinghua está entre as cinco universidades do mundo que mais pedem patentes internacionais.

Nos anos 1990, os pesquisadores Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff chamaram isso de tríplice hélice: a inovação acontece quando universidade, empresa e governo giram juntos. A ideia nasceu no Ocidente. A China a transformou em rotina. É a versão chinesa do que William Kerr chama de “cluster de talentos”, que já comentamos aqui em The Gift of Global Talent: o talento vai para onde estão os melhores da sua área.

Na América Latina, a universidade e o empreendedor ainda vivem em mundos separados. Em 2025, o Brasil fez 619 pedidos internacionais de patente; a China, 73.718 (WIPO). Não falta cérebro. Falta ponte.

A boa notícia é que a ponte se constrói de baixo para cima. Algumas formas práticas de começar:

  1. Procure quem já estuda o seu problema. Quase todo problema que vale um negócio tem um grupo de pesquisa estudando o assunto. Um e-mail para um laboratório custa pouco.
  2. Traga um pesquisador para o time, como sócio, conselheiro ou bolsista. Muito projeto de mestrado procura um problema real.
  3. Use a estrutura que já existe: incubadoras universitárias, núcleos de inovação tecnológica, editais de pesquisa com empresa.
  4. Leve a propriedade intelectual a sério desde o início. Patente é burocracia, sim. Mas também é a prova de que você criou alguma coisa, e um ativo que investidores entendem. E é uma escolha: o próprio Pad-Man abriu mão da patente da sua máquina para que ela se espalhasse mais rápido. Proteger ou abrir, o importante é decidir de propósito.

E isso não vale só para startups. Empresas grandes têm ainda mais a ganhar: um problema bem definido, dados e um cliente interno são exatamente o que a academia não tem.

Lição 3: uma competência central, muitos mercados

Repare num padrão. A iFlytek começou ouvindo e entendendo voz. Daí vieram a tradução, a sala de aula, o consultório e até uma câmera acústica com 132 microfones que “enxerga” vazamento de gás e falha elétrica em subestações de energia. A BYD começou com bateria de celular e chegou ao carro elétrico. A Hikvision começou com câmera e chegou à mina.

Em todos os casos, a empresa não pulou de galho em galho. Aprofundou uma competência até ela servir para problemas que ninguém imaginava no começo. É a diferença entre diversificar e se desdobrar.

Para quem empreende, vale perguntar: qual é a coisa que eu (ou meu time) sei fazer melhor do que quase todo mundo? E em quantos problemas diferentes ela caberia?

Lição 4: paciência também é estratégia

Bateria, chip, robô e modelo de IA levam anos para dar retorno. Um fundo de 20 anos só existe porque alguém aceitou esperar.

Nós, latino-americanos, temos bons motivos para ter pressa: juros altos, crises a cada poucos anos, capital escasso. Mas a pressa também tem custo, porque empurra para problemas pequenos e retornos rápidos. Com o empreendedor acontece o mesmo que com os países: continuidade acumula. É a garra de Angela Duckworth, paixão e perseverança, levada à escala de uma economia. O que a China fez com política ao longo de uma década, uma pessoa faz com hábitos, escolhas e aprendizado repetidos por anos.

O outro lado

Seria fácil terminar com um “copiem a China”. Não é o caso, e para mim o mundo não é binário. Em Bilhões de Empreendedores, Khanna já mostrava que, na China, o Estado é o grande empreendedor. O mesmo Estado que compra, financia e abre caminho também decide prioridades, e quem está fora delas tem menos espaço. A mesma câmera que dá sensação de segurança levanta perguntas sérias sobre privacidade. A mesma IA que atende na cabine precisa de um médico que responda por ela. E algumas das empresas mais avançadas vivem sob sanções e disputas comerciais. Cada sociedade vai ter que encontrar o seu ponto de equilíbrio.

O que fica, para mim, são as quatro lições, e elas não dependem de regime nem de tamanho de país: problema grande, ciência como sócia, competência que se desdobra e paciência. Como no caso de Israel, a experiência chinesa mostra que dá para educar as pessoas para resolver problemas e inovar.

E o seu ponto de partida?

Nenhum empreendedor começa no vácuo. O ambiente pesa, e por isso o Score Empreendedor olha para os seus traços e competências e também para o contexto em que você está. É uma foto de momento, para autoconhecimento, e não um veredito.

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No próximo post, as pessoas: quem são os fundadores por trás dessas empresas, e como eles se comparam com os grandes nomes do Ocidente.

Sigo investigando…

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