Abílio: determinado, ambicioso, polêmico
Cristiane Correa
Abílio Diniz foi o grande responsável por transformar o Pão de Açúcar em uma das principais redes de supermercado do Brasil. Seu pai, o imigrante português Valentin dos Santos Diniz, fundou a empresa um pouco antes do seu filho primogênito se formar em administração de empresas na FGV, em 1958 – Abílio foi aluno de uma das primeiras turmas da tradicional universidade paulistana. O modelo supermercado que estamos acostumados, onde as pessoas escolhem os produtos na prateleira, era uma novidade no mundo.
Até então, o comércio tradicional de alimentos contava com atendentes atrás do balcão (estilo armazém ou empórios), que tiravam pedidos e selecionavam a mercadoria indicada pelos clientes. A inovação foi a última tacada do dono de uma doceria de sucesso nos jardins, em São Paulo (fundada em 1948), em fazer com que o filho se interessasse pelo negócio da família e desistisse de tentar a sorte nos EUA. Abílio sempre teve uma ambição muito grande e seu objetivo era partir para empreender no lugar aonde as coisas aconteciam e onde via mais oportunidades de crescer.
A decisão de ficar no Brasil foi pra lá de acertada. O Pão de Açúcar cresceu até se tornar o líder em marketing share no setor de supermercados, batendo gigantes multinacionais, como Carrefour e Walmart, e sendo maior do que as grandes redes regionais de capital nacional.
“…De forma que durante muitos anos fomos nós que fizemos o Pão de Açúcar. Nós dois. O seu Santos nos dando a benção, o que era bom, mas a liderança sempre foi do Abílio. Tanto que quando o negócio supermercados tomou forma, com a inauguração da segunda loja, ele ganhou do pai 16% da empresa. Abílio nasceu para ser empresário. ” De Luiz Carlos, diretor administrativo da empresa por 20 anos, em um dos vários bons relatos coletados pela jornalista Cristiane Correa, no livro que publicou.
A energia talvez seja a principal característica do entusiasta de esportes, que malha 5 horas por dia, religiosa e obsessivamente. Abílio também é um estrategista. Seu lema “copiar, copiar, copiar…” pode ser uma inspiração para empreendedores, desde que se atentem para a execução, exemplificada nas palavras do próprio Abílio: “Sempre fui de ver de perto tudo o que podia, sempre quis conhecer mais. A frase “Quero ser melhor amanhã do que fui hoje” nunca foi uma retórica para mim. Estive em quase todas as redes da Europa. Conheço profundamente o varejo nas principais regiões dos Estados Unidos. Fui ver como operavam redes de países tão distantes como Rússia e China (…) E difícil falar um negócio desses, mas deve existir muito pouca gente no mundo que visitou tanta loja de supermercado quanto eu”.
Este ímpeto o levou ao Carrefour e depois ao Casino, concorrentes mortais e ambos sócios de Abílio (em momentos distintos, bem retratados no livro). Ainda brigou com seus irmãos pelo controle da companhia e comprou as Casas Bahia e outras redes importantes do varejo brasileiro.
Seu estilo de liderança era implacável. Conhecia muito o negócio e exigia o mesmo nível de dedicação das equipes que liderava. Egocêntrico, centralizava as decisões e não gostava de ser contestado. Não tinha pudor em substituir quem não funcionava. Vaidoso, não era incomum a falta de reconhecimento para aqueles que o ajudavam.
O Iron Man Brasileiro parece ter levado a sério a “recomendação” de empreender até os 90 anos, do pouco conhecido para o público brasileiro, o empresário argentino Tito Louzeau. Abílio acabou saindo do Pão de Açúcar e atualmente é um dos principais acionistas do Carrefour, via sua empresa Península Investimentos, onde é Presidente do Conselho. Segue impressionantemente ativo em seus mais de 80 anos.
Aquelas passagens interessantes que refletem um pouco desta longa e movimentada trajetória.
“Em sua última entrevista concedida a mim, Drucker disse: “Árvores não crescem até o céu, José”. Assim ele descrevia o limitado ciclo de sucesso da maioria das empresas, de trinta anos em média, e o desafio fundamental da gestão – se o esperado é o fracasso dos negócios depois de determinado tempo, o que os gestores precisam fazer ‘e enganar a natureza, levando-os a renascer tantas vezes quanto for possível”, de José Salibi Neto, co-fundador da HSM e que assina o excelente prefacio do livro
“Dona Floripes era mulher poderosa. O Abílio “puxou” a esperteza do pai e o poder da mãe” De Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor da FGV, ex-ministro e ex-diretor do Pão de Açúcar.
“…poucos varejistas no mundo tinham essa disciplina para conferir de perto e com regularidade a operação. O pessoal do Walmart sempre fez. E o Pão de Açúcar seguiu o mesmo caminho. ” Do consultor especializado em varejo, o canadense Gerard Virthe.
“Havia muita discussão e todo mundo podia falar, mas não me lembro de ter visto Abílio alguma vez colocar um tópico em votação”, comenta um ex-conselheiro da CBD (Companhia Brasileira de Distribuição, o nome legal do Pão de Açúcar).
“Eu não acredito em empresas familiares. O risco de confundir o que é empresa e o que a família é grande, e quem sofre normalmente é a companhia”. De Abílio Diniz, que sofreu na pele algumas decisões de seu pai em relação a estrutura da companhia.


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