Understanding Human Nature
Alfred Adler
O austríaco Alfred Adler foi o fundador da chamada Psicologia Individual, uma escola que trata de entender a natureza humana e como o ser humano toma suas decisões e direciona sua vida, partindo do entendimento da personalidade e do temperamento de cada indivíduo. Vemos desdobramentos mais modernos desta escola, por exemplo, nos testes de personalidade, alguns deles já analisados no blog (MTBI, Big Five, Cloninger).
Adler iniciou sua carreira como discípulo de Freud e, posteriormente, se apartou do grupo por discordar da ênfase sexual dada às definições da personalidade e ao entendimento da conduta dos indivíduos. Sua teoria é de que todos os seres humanos atuam obrigatoriamente em função de metas ou objetivos específicos, conscientes ou inconscientes. Nossas atitudes, nossa forma de ser e estar no mundo, nossa alma, estão totalmente orientadas por estes objetivos. Entender nossas alavancas de movimento, portanto, é o melhor e único caminho para o autoconhecimento.
“O destino do homem repousa em sua alma” Heródoto
Segundo o autor, duas forças contrapostas orientam nossos objetivos de vida: 1) a busca por poder e superioridade e 2) a necessidade do convívio social.
Essas duas alavancas fazem parte de nossa programação natural, estão na base intuitiva dos homens. E, conforme o ambiente em que nos desenvolvemos, conforme o contexto de cada um, sobretudo durante a infância, estas forças serão mais ou menos estimuladas. Uma ou outra predominará.
O convívio social é uma necessidade básica do ser humano, como comer, dormir, se hidratar. Nossa vida é impossível sem interações com outras pessoas. Um bebê não conseguiria se desenvolver sem o suporte dos pais ou de um cuidador. Então, desde os primeiros dias, já começamos a desenvolver técnicas de convívio social para atingir nossos objetivos básicos de sobrevivência. A própria ideia de civilização e de nossa sobrevivência como espécie depende de altas doses de vivência coletiva. A divisão do trabalho, a especialização e o desenvolvimento de tecnologias em grande escala seriam impossíveis sem que soubéssemos nos organizar coletivamente. “A comunidade é a melhor garantia de continuidade da espécie humana”. Cada comunidade, ou sociedade, constrói ao longo de seu desenvolvimento, certos valores e práticas que são consideradas como adequadas para aquele grupo de pessoas. Como indivíduos, estamos constantemente lutando para aprender e, depois, nos adaptar as sociedades em que estamos inseridos, buscando incorporar seus valores e símbolos e repetir suas práticas. Pessoas saudáveis são aquelas que, via identidade e autenticidade próprias, conseguem inserir-se e adaptar-se a suas comunidades e, com sua vivência, acabam contribuindo para a evolução e o desenvolvimento das mesmas. Em outras palavras, pessoas saudáveis atuam de forma autentica, em prol de suas comunidades.
Justamente, deste mesmo convívio social, surge a segunda força motora de nossa alma, segundo o autor: como percebemos nosso convívio social na primeira infância. Todos nos deparamos com uma sensação de inadequação durante a infância. Simplesmente porque, como crianças, não estamos preparados para enfrentar sozinhos todos os desafios que a vida nos impõe. Então, de partida, nos sentimos diminuídos e desafiados pela vida. Dependendo do tipo de ambiente em que crescemos e como vamos enfrentando este ambiente, esta sensação de inadequação pode ser maior ou menor (Brené Brown tem uma interessante abordagem sobre este sentimento). Caso ela seja muito grande, o indivíduo tende a desenvolver uma necessidade de compensá-la com um esforço por superioridade, por poder ou reconhecimento.
Todos nós experimentamos estes sentimentos contrapostos: o conforto de sentirmos parte, adaptados, ou a sensação de sermos inadequados, inaptos, inferiores. As diferenças são as intensidades destes sentimentos e destas vivencias, que estimulam, como consequência, diferentes reações em forma de objetivos de vida. Desta dinâmica complexa da relação com o ambiente e com outras pessoas que ocorre nos primeiros momentos da infância surgem nossas alavancas da alma. Daí a importância dos pais, irmãos, professores e pessoas próximas para a formação do caráter dos indivíduos. Um indivíduo que prioriza demais a comunidade, se anula, acaba vivendo para os demais e perde sua individualidade. Por outro lado, a pessoa que esquece do seu entorno acaba ficando isolado e solitário. O segredo, uma vez mais, está no equilíbrio.
O caráter, ou o temperamento, segundo Adler, seriam somente estratégias de nosso organismo na busca por aqueles objetivos iniciais – convívio social ou ambição por poder e superioridade. Comportamentos agressivos, como vaidade, ambição, ciúme, inveja e ódio seriam ferramentas utilizadas pelos indivíduos (consciente ou inconscientemente) para, de alguma forma, lutar ou confrontar o ambiente e o entorno social e alcançar seus objetivos de superioridade, poder ou reconhecimento. Ao mesmo tempo que traços do caráter não tão agressivos em relação a terceiros, tais como, timidez, ansiedade e o medo de falhar também afastam os indivíduos do convívio social e, consequentemente, da possibilidade da experiência de uma vida plena.
Este choque constante e contraposto das duas alavancas pode ser percebido de forma bastante clara na jornada de um empreendedor. Por um lado, o desconforto em relação ao status-quo e a ambição de transformar seu ambiente são elementos chave para o impulso de construir algo novo. Mas, se esta sede de protagonismo passa de determinados patamares, podemos deparar-nos com empreendedores ambiciosos, vaidosos e egocêntricos demais, que acabam agredindo o seu entorno e, em algum momento, deveriam ser expelidos do processo (pelas equipes, pelos sócios, clientes, fornecedores, etc).
Por outro lado, aqueles empreendedores que entendem sua responsabilidade em relação as comunidades e sociedades e direcionam suas decisões respeitando o entorno social, transformam a atividade empresarial em um agente saudável de desenvolvimento – para ele mesmo e para a sociedade. Lembro do exemplo de liderança e sentido de comunidade criada pelos All Blacks, que souberam valorizar o time e o legado, sem tirar a autenticidade e protagonismo de cada membro da equipe.
Adler, que escreveu este livro há 100 anos, mostrava preocupação em relação a sociedade, composta por indivíduos majoritariamente doentes do ponto de vista psicológico, com uma predominância massiva pela busca por poder e superioridade, e que, no seu processo de formação de caráter, relegavam a um segundo plano, o convívio social. Seu objetivo com o livro era fornecer uma ferramenta de autoconhecimento para os indivíduos, para que tomassem consciência do seu próprio comportamento e dos demais.
O livro continua atual no século XXI. Não mudamos muito como humanos. Seguimos convivendo com estas mesmas forças antagônicas atuando em cada um de nós, com seus reflexos transparentes na sociedade. A tomada de consciência continua sendo essencial para nosso desenvolvimento. Seres humanos saudáveis criam empresas saudáveis e fazem um mundo melhor.
Algumas passagens que ilustram parte do pensamento do autor:
“… o sentimento social e o indivíduo em busca de poder e dominação influenciam toda atividade humana e direcionam a atitude de cada indivíduo em sua busca por segurança, em sua realização dos três grandes desafios da vida: amor, trabalho e sociedade. Teremos que nos acostumar, ao julgar fenômenos psíquicos, a investigar as relações quantitativas e qualitativas desses dois fatores, se quisermos entender a alma humana. ”
“A alma do homem não age como um agente livre por causa da necessidade constante de resolver os problemas que surgem, que acabam determinando as linhas de suas atividades”.
“Neste sentido, todos os fenômenos da vida da alma podem ser concebidos como preparativos para alguma situação futura. Parece dificilmente possível reconhecer no órgão psíquico, a alma, qualquer coisa que não seja uma força agindo em direção a um objetivo, e a Psicologia Individual considera todas as ações manifestadas pela alma humana como se fossem direcionadas a um objetivo ”
“Os seres humanos podem ser diferenciados em dois tipos: aqueles que sabem mais sobre sua vida inconsciente do que a média e aqueles que sabem menos… os indivíduos do primeiro tipo estão conectados com múltiplas esferas da vida e têm grandes interesses em homens, coisas, eventos e ideias”
“…um sonho mostra não apenas que o sonhador está ocupado na solução de um dos problemas de sua vida, mas também como ele aborda esses problemas” sobre como os sonhos podem ser importantes para o autoconhecimento, já que reproduzem os mesmos padrões de comportamento de quando estamos acordados, em busca de determinado objetivo.
“…devemos assumir a batalha não porque tenhamos algum respeito patologicamente exagerado pela mulher, mas porque a atual atitude falaciosa nega a lógica de toda a nossa vida social”, sobre sua visão a respeito de como nossa organização social e nossa criação foi ao longo da história, descriminando, de forma totalmente antinatural, a mulher em seu desenvolvimento como indivíduo.
Termina suas reflexões a este respeito de forma enfática (nem parece um discurso de um austríaco de princípios do século XX): “É nosso dever apoiá-las em seus esforços para obter liberdade e igualdade, porque, finalmente, a felicidade de toda a humanidade depende das condições que afetam a mulher; para que ela possa se reconciliar com seu papel feminino de forma natural, sabendo que a adequação da relação homem-mulher também depende disso”
“Acreditamos que esses traços de caráter são indistinguíveis da personalidade, mas não são herdados, nem imutáveis … eles foram considerados necessários e adequados ao padrão de comportamento e foram adquiridos para esse fim, às vezes muito cedo na vida. Não são fatores primários, mas secundários, que foram forçados a existir pelo objetivo secreto da personalidade”
“A necessidade de justificar cada ato e pensamento se origina no nosso sentido inconsciente de unidade social”
Li este livro e lembrei da música do Eddie Vedder… Se não viram o filme, vejam.

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