E se colocar pimenta?

E se colocar pimenta?

Caito Maia e Rodolfo Araujo

A história da marca de óculos e acessórios Chilli Beans começa como um negócio de nicho, direcionado para um público alternativo, que acaba se expandindo para uma empresa de moda, com produtos para muitos tipos de consumidor. O fundador da empresa, Caito Maia, era filho de uma família de classe média alta de São Paulo, que começou a contrabandear óculos chineses dos EUA em malas de viagem. No começo, expunha as mercadorias no porta malas do carro, até que teve a primeira sacada de montar uma barraquinha na hoje consagrada feira de consumo alternativo Mercado Mundo Mix, em São Paulo.

Caito é musico, mas sempre teve muita aptidão para compra e venda de mercadorias. Segundo o próprio, “sempre tive esta veia comerciante, vendia de tudo, sons, instrumentos, carros, tudo”. Começou comercializando instrumentos musicais, chegou a trazer produtos do Paraguai, até que encontrou os óculos. Vendedores de óculos chineses tem a rodo em São Paulo e em qualquer cidade com mais de 300.000 habitantes no planeta. Caito, que nunca teve dificuldades para fazer dinheiro, tinha bons olhos para escolher as mercadorias e na forma como as expunha para venda. A mesma facilidade para conhecer gente e fazer amigos. Construiu uma rede de contatos que garantia o escoamento das primeiras levas de mercadorias: gente descolada, alternativa, mas com dinheiro para gastar em itens de moda. A rede se expandiu para outras tribos além dos alternativos e chegou as patricinhas e mauricinhos do Shopping Villa Lobos, onde surgiu o primeiro quiosque da rede.

Daí, o negócio não parou de crescer. Daquele stand no Mundo Mix e a primeira sede na Galeria Ouro Fino, em São Paulo, a Chilli Beans se transformou em uma rede de franquias internacional. São mais de 450 lojas espalhadas pelo Brasil, Portugal, EUA e alguns países da América Latina. Você não faz isso se não tiver muitos diferenciais. A seguir, eu resgato alguns deles; parte, velhos conhecidos nossos, outros são novidades interessantes para ter no radar.

Equipe: Caito è um empreendedor mão na massa, muito presente, que parece estar em todos os cantos da sua empresa. Faz uma gestão quase de micromanagement, sempre tratando de dar o exemplo de como fazer. Mas um negócio não consegue escalar e ganhar relevância se depender 100% do dono do negócio. Para crescer, Caito contou com uma série de profissionais muito fiéis a ele e à empresa que se desenvolveram junto com o negócio. Uma gestora de produtos, um profissional experiente em logística, um especialista em franquias, depois um bom financeiro, boa equipe de publicidade e assim vai. Montou um time coeso, comprometido, que conseguia complementar suas habilidades iniciais.

Inovação: o modelo de franquias da Chilli Beans foi uma inovação em si mesma. A empresa foi fundada no final dos anos 90 (1997) e saiu ao mercado com um modelo barato, estilo quiosque, com uma maneira de vender óculos totalmente diferente e com muita presença de marca (cores chamativas e música eletrônica, entre as novidade). As peças estavam à mostra, podiam ser provadas sem nenhuma cerimônia e os vendedores não se acanhavam em opinar sobre a melhor peça para cada pessoa. As lojas tinham muita variedade de peças, mas pouco estoque, com um giro bastante alto. A empresa inovou na experiência dos clientes, em um momento que nem se falava em user experience. Este modelo chamou a atenção de muitos franqueados empreendedores (os tipos bons de franqueados, como bem sabe o Ray Kroc), que ajudaram a expandir a marca.

Marca: A marca é o ativo mais importante na história da Chilli Beans, segundo os autores. Ela refletiria a cultura da companhia, composta por significado, pessoas e estética. O sucesso da marca pode ser atribuído, em parte, a mais um fruto da rede de contato de Caito: os sócios da agencia de publicidade Fracta (que acabou sendo vendida em 2015), que desde o começo, tinham carta branca para ousar. Com pouco investimento, aproveitando oportunidades e com muita criatividade e ousadia, a empresa fez campanhas de marketing de guerrilha de alto impacto que deram muita visibilidade para a marca da pimenta. De alguma forma, me fez lembrar a história da Benetton e a parceria com o fotógrafo Toscani.

Cultura: a Chilli Beans tem uma cultura moderna, que abraça a diversidade e dá liberdade para clientes e empregados. Este modo informal e aparentemente pouco profissional de fazer as coisas acaba criando uma relação de amor ou ódio com a empresa. Nem todo mundo se adapta ao jeito da empresa. Mas quem se envolve acaba tendo uma relação quase passional com a marca. A ponto de empregados e franqueados tatuarem a marca da empresa na pele. Alguma coisa diferente está acontecendo quando as pessoas chegam a exaltar suas emoções a este ponto.

Caito hoje em dia é um dos apresentadores da versão brasileira do Shark Tank, que passa na Rede Bandeirantes. Bom lugar para um show-man com bom feeling para negócios e para pessoas. Pode ser um sinal de que ele conseguiu deixar a empresa um pouco mais independente do fundador, uma preocupação ressaltada mais de uma vez ao longo da narrativa. Ou não… Só o tempo irá dizer…

Algumas passagens do livro, com aqueles depoimentos que sempre levam à reflexão:

“Por mim, ele não teria feito nada do que conseguiu. Na família, ninguém tem tino para isso. Meu pai, avo dele, era médico, gastava o dinheiro apenas com cigarros e gasolina. Nunca foi de fazer negócios. Meu marido também era um tanto conservador. Eu, mais ainda. Não sei de onde veio essa verve”. Da mãe de Caito, cujo marido também era empreendedor e tinha um conservatório no bairro dos Jardins, em São Paulo.

“Eu fali porque não tinha estrutura financeira, experiência de gestão e tomei dois calotes que me quebraram totalmente as pernas. Quem está no atacado não consegue suportar isso”, de Caito sobre a empresa de venda de óculos no atacado que quebrou em 1996, um pouco antes de recomeçar com a Chilli Beans.

“Empreendedores de sucesso são aqueles que sempre mantem as antenas ligadas perante o mundo e captam sinais a todo instante” sobre a ideia de trazer para o Brasil, os óculos que ele via à venda nos EUA.

“Caito Maia tem sido o principal pilar que sustenta o jeito de ser da companhia. Informal, direto, empreendedor, prefere o contato presencial ou o telefonema aos e-mails; é explosivo, genioso, emotivo e, muitas vezes, teimoso”

“Os números são sagrados. Você precisar me ligar todos os dias. Já começou mal” a um supervisor comercial que acabava de começar nas novas funções.

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