A Marca da Vitória: autobiografia do fundador da Nike

A Marca da Vitória: autobiografia do fundador da Nike.

Phil Knight

Poderíamos dizer que Chuck Night é um empreendedor à moda antiga. Começou o seu negócio na década de 60, quando a comunicação ainda era feita sobretudo via cartas. Foi um dos primeiros visionários a ver o potencial da Ásia como fábrica do mundo e foi fazer um “mochileiro” para países exóticos quando os voos intercontinentais ainda estavam começando e não existia guia e aplicativos para turistas.

Por estas e por outras, o livro é uma aula de empreendedorismo. Sua história de dificuldades e superações para construir o império Nike tem todos os elementos de uma boa história de fundadores e empreendedores. Suas lições servem para qualquer pessoa, em qualquer época, em qualquer lugar.

Phil Knight se formou como contador na Universidade de Oregon, nos Estados Unidos e depois fez um MBA em Stanford. E havia passado um ano servindo o exército dos Estados Unidos. Com 24 anos estava pronto para conseguir o emprego dos sonhos e fazer uma carreira de sucesso no mundo corporativo. Mas, este era o sonho do seu pai e não o seu próprio. Resolveu deixar de lado o caminho “fácil” e ir montar o que seria a maior empresa de calçados desportivos do mundo.

Era uma pessoa tímida e que gostava muito de ler. Lia muito, sobre vários assuntos diferentes, mas gostava principalmente de façanhas militares e de façanhas esportivas. Antes de viajar estudou e pesquisou muito sobre os lugares que ia visitar. Estudou e se informou sobre a cultura japonesa e a forma de fazer negócios dos nipônicos antes de encará-los de frente (a coragem preparada, de Cortela). Abaixo descrevo os elementos chave para o sucesso da empresa, na minha opinião:

Paixão: Teve a sorte de descobrir ainda muito jovem a sua verdadeira paixão, os esportes, mais especificamente, o atletismo. Foi um atleta universitário e sempre esteve às voltas com grandes disputas esportivas. Seu treinador e futuro sócio na Nike – Bill Bowerman – era um dos mais respeitados treinadores de atletismo dos EUA e foi o grande mentor de Chuck durante sua vida. Os atletas e treinadores foram os primeiros compradores dos tênis japoneses importados pela Blue Ribbon (primeiro nome da empresa) e depois dos tênis Nike. Vender algo que você conhece com paixão é mais fácil. (veja sobre as relações entre paixão e garra no livro da Angela Duckworth)

Coragem: A viagem a Ásia, mesmo contra a vontade de seu pai e da maior parte das pessoas que o rodeavam, foi pensada já incluindo o projeto que tinha escrito na aula de “espírito empreendedor” em Stanford e que não saía da cabeça de Chuck: montar uma empresa de calçados esportivos, importando mercadoria do Japão (tentando replicar o mesmo sucesso daquele momento com as máquinas fotográficas). Depois de passar alguns dias no Havaí, chegou ao pais asiático, que ainda sofria o trauma de menos de 20 anos atrás da derrota na segunda guerra mundial. Conseguiu uma reunião com os executivos de uma empresa japonesa e foi lá para uma conversa. Não tinha nada além de um Business Plan. Teve a coragem de ir atrás do que acreditava. Queria “deixar sua marca no mundo”, em suas próprias palavras. Se preparou para convencer os japoneses a enviar uma remessa de 50 pares de calçados para fazer um teste de mercado. Era o começo de uma jornada quase épica.

Persistência: A primeira conversa com os japoneses foi em 1962. Em 1972, Phil Knight continuava levando a empresa de forma paralela a outro emprego, primeiro como auditor na Price Waterhouse e depois como professor de contabilidade na Universidade do Oregon. Apesar dos grandes avanços no volume de vendas, a empresa não conseguia pagar um salário a seu principal executivo. Ao longo dos primeiros 15 anos, a empresa esteve pelo menos cinco vezes a ponto de quebrar. Não conseguia financiamento bancário suficiente e teve problemas com os fornecedores. Chuck e sua equipe nunca desistiram. Sempre foram até o limite do impossível para continuar acreditando.

Equipe: Os Buttface, como se denominavam. Um ponto alto da trajetória de vitória da empresa e pilar fundamental para passar por todos os desafios que se apresentaram foi sem dúvida a equipe que Chuck formou. Montou um time de 5 ou 6 pessoas, fanáticas por esportes e calçados (os chamados shoe dogs), todos com um compromisso visceral com a empresa, com muita energia e com vontade de deixar sua marca no mundo. Compartilhavam os mesmos valores! “Camaradagem, lealdade, gratidão. Inclusive amor”

Cultura de Inovação: a Nike foi desde o início uma empresa inovadora. Inovou com os fornecedores. Inovou com seus dois shoe dogs principais (Bowerman e Johnson, outro dos sócios fundadores, o primeiro empregado em tempo integral da empresa e um verdadeiro workaholic), que não paravam de inventar novas formas de melhorar a performance dos tênis. Inovou na forma de vender, com lojas especializadas e focadas nos atletas. Inovou no marketing, na forma de pagar fornecedores, no patrocínio de atletas. Inovação está no DNA da Nike. Desde o começo.

Confiança: está relacionada a persistência, ao otimismo, a fé de que vão encontrar uma forma de resolver os problemas. “Mais que Patrimônio Líquido, mais que liquidez. Confiança é o que um homem necessita” estas palavras resumem o estado de espirito diante de uma das várias recusas dos bancos para financiar o seu negócio. Esta confiança que te faz dar um passo mais e não parar.

Para concluir, tomo a liberdade de reproduzir duas reflexões que Phill Knight faz no livro e que são absolutamente autoexplicativas (a tradução ao português é minha mesmo, porque li uma edição em espanhol):

“Quando você faz alguma coisa, quando melhora algo, quando o oferece, quando aporta uma coisa ou um serviço novo à vida de um desconhecido e consegue que este seja mais feliz e saudável, seguro ou melhor, e se além disso, o faz com cuidado e inteligência, como deveria fazer tudo, está participando de forma mais ativa no grande teatro da humanidade. Mais que limitar-se a viver, está ajudando a outras pessoas a viver mais plenamente e, se este é o negócio, ok, então pode me chamar de empresário”

“A sorte desempenha um papel fundamental. Sim, eu gostaria de reconhecer publicamente o poder da sorte. Os esportistas a tem, os poetas a tem e as empresas a tem. Trabalhar duro é essencial, uma boa equipe é essencial, o cérebro e a determinação são de um valor incalculável, mas a sorte pode decidir o resultado. Alguns não chamariam de sorte. Talvez tao, logos, jnana o dharma. Ou espírito. Ou Deus.

…Eu lhes diria: tenha fé em si mesmo, mas também fé na fé. Não como a define os outros, mas como a defina você mesmo. Em seu coração”

PS: o título original do livro é Shoe Dog, muito mais emblemático e representativo do que o título da tradução brasileira. Shoe Dog representa justamente a paixão de Phil Knight – e de vários protagonistas da história – pelos tênis e os esportes.

Frases soltas do livro que tem mensagens por si só e que vale a pena compartilhar:

“A felicidade é o como, e não o que”

“Queria o que quer todo mundo: ser eu mesmo, em tempo completo”

“Você tem que esquecer as vozes internas que gritam e te suplicam: nem um passo mais!”

“Queria construir algo que fosse meu, algo que pudesse apontar e dizer: Fui eu que fiz! Essa era a única forma que via de fazer com que a vida tivesse sentido”

“Estava aprendendo que não gostava da derrota. Perder era uma forma de agonia”

“A vida é crescimento. Cresça ou morra!”

“Não importa o tipo de esporte, não importa a atividade humana: o esforço absoluto sempre ganha o coração das pessoas”

“Quem não arrisca, não ganha”

Nike

phil_knight

8 comentários

  1. Fui olhar no Google. Hoje somos aproximadamente 8 bilhões de pessoas vivendo neste lindo planeta. E fiquei pensando…🤔 Seria possível para todos se tornarem empreendedores caso em cada um de nós fossem estimuladas essas qualidades de garra, fé na fé, paixão, confiança? O império da Nike precisa que haja operários SEM todas essas qualidades para FAZER os calçados? Ou não? E, caso seja possível desenvolver nas pessoas esses atributos… a sorte é que acabaria definindo os casos de “sucesso”?

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