Os novos reis argentinos: as incríveis histórias dos 4 unicórnios argentinos

Os novos reis argentinos: as incríveis histórias dos 4 unicórnios argentinos

Sebastian Catalano

Unicórnios são aquelas figuras mitológicas extraordinárias e difíceis de encontrar: cavalos com chifres, que são mágicos. Mas, no mundo moderno das start-ups são empresas de tecnologia com avaliação de mercado superior a usd 1 bilhão. Segundo o site Contxt.com, são 19 unicórnios latino-americanos em abril de 2019 : 10 brasileiras, 6 argentinas, 1 colombiana e 2 mexicanas. Quando o livro foi editado, em setembro de 2017, eram 9. Sendo 4 argentinas, 3 brasileiras e as 2 mexicanas. Mais um indicativo da velocidade em que as coisas acontecem atualmente.

O livro conta a história destes 4 primeiros unicórnios argentinos e seus fundadores: Mercado Livre, Globant, Despegar e OLX. São nomes conhecidos e líderes de mercado na região. Três delas são listadas na NASDAQ.

Suas histórias têm alguns denominadores em comum e, naturalmente, suas particularidades. Gostaria de ressaltar estes MDC e mencionar de passagem outros pontos que mais me chamaram a atenção.

Em primeiro lugar, são quatro empresas criadas na euforia do final do século XX, um pouco antes do estouro da bolha pontocom, no meio do ano 2000. Foram empresas geradas em uma época de otimismo exuberante e capital farto. Os fundos de venture capital eram ativos e agressivos. Colocavam milhões em apresentações de power-point. Aquela mesma onda que gerou a Alibaba na china, desembarcou na América Latina. Todo mundo queria encontrar os jogadores que dominariam o mercado local.

Os argentinos protagonistas deste livro, todos atualmente na faixa dos 40 e 50 anos de idade, estavam muito bem posicionados para aproveitar este movimento. A Argentina vinha de um período de 10 anos de paridade 1-1 entre o peso e o dólar. O mercado – e as universidades – americanos eram bastante acessíveis para os hermanos latinos. Ainda mais para famílias de bom poder aquisitivo, com robustas reservas em dólares. Os fundadores do Mercado Livre, Despegar e OLX, muitos deles self-funded, fizeram MBAs em universidades americanas no período anterior a fundação de suas empresas. Viram de perto o impacto da internet no mundo de negócios americano, tinham os contatos e acessos aos recursos para replicar os modelos de empresas exitosas por aqui (os chamados copycats – réplicas de modelos já existentes). A primeira chave fundamental foi o timing: ser a pessoa certa, no lugar certo.

Marcos Galperin, do Mercado Livre, Guibert Englebienne, um dos sócios da Globant (o único que não fez MBA nos EUA), Alec Oxenford, da OLX e Roby Souviron, um dos sócios da Despegar, tinham um mindset empreendedor. Tiveram exemplos empreendedores na família e sempre consideraram empreender como um caminho natural. Este fator faz muita diferença na hora de captura oportunidades. É difícil pensar no caminho do empreendedorismo quando seus exemplos e suas referências pensam que o futuro está em arrumar um bom emprego e fazer carreira no setor público ou em uma multinacional. Ter o radar ligado para o empreendedorismo é a primeira chave para empreender, como já tinha sido sugerido quando estudamos o comportamento dos empreendedores na tomada de decisão.

Mas, somente o timing e essa aptidão (ou prontidão, “estado de alerta”) para empreender não são suficientes para dar certo. Vários outros empreendedores e empresas surgiram neste período na Argentina e na região, mas poucas conseguiram enfrentar as crises que viriam. Primeiro, o já citado estouro da bolha, onde do dia para a noite, o capital mingou. E depois, a própria crise argentina em 2001: o peso desvalorizou 100% e o corralito tirou toda a liquidez da economia. Não tinha mais dinheiro para nada. O dólar sumiu.

Os unicórnios argentinos sobreviveram. Suas histórias são de perseverança, adrenalina, estratégias de escala, expansão e tomadas de decisão em momentos decisivos, saídas a bolsa de valores (com road-shows e tocagem de sino e tudo) e crescimento global. Tudo isso, porque tinham bons empreendedores a frente deles. Da leitura do livro, resgato três elementos que fizeram a diferença para estas empresas:

  • Equipe: o autor pediu a todos os protagonistas, dicas que gostariam de deixar para futuros empreendedores. O único fator comum para todos eles, foi a equipe. De fato, as quatros empresas se diferenciaram dos concorrentes devido a suas equipes fundadoras. Este elemento foi também reconhecido por investidores e competidores ao longo das trajetórias descritas no livro. A qualidade e sintonia dos times. Três dos unicórnios foram fundadas por quatro ou cinco sócios, que eram também amigos antes de se tornarem empresários. Mercado Livre foi fundada por amigos de Stanford. Globant, por amigos de infância de La Plata, uma cidade no interior da Argentina, que depois trabalharam em uma consultoria de TI. Despegar, foi fundada por amigos da Universidade de Duke. A OLX foi a segunda empreitada do seu fundador, Alec Oxenford, depois do fracasso da DeRemate (arremate.com, no Brasil), cuja principal lição aprendida, segundo o próprio Alec, foi justamente a formação do time.
  • Foco: “Ao longo do desenvolvimento de uma empresa, você vai ter mil oportunidades para distrair-se. O difícil é dizer não e manter-se focado no seu negócio. Este é meu papel”, de Martin Migoya, CEO da Globant. Esta visão é compartilhada também por Galperin, que a visão de longo prazo, fez a empresa crescer e salvou-a em momentos decisivos.
  • Gestão e Austeridade: ter o pé no chão, sobretudo naqueles momentos de exuberância e grana a rodo, foi o diferencial para que estas empresas enfrentassem os momentos difíceis. Duas delas trouxeram para a equipe profissionais especializados em finanças, que complementaram o perfil dos fundadores. Mesmo com muito dinheiro em caixa, investiram mais na equipe e nos processos do que em marketing ou escritórios caros, por exemplo. “È melhor fazer do que falar que está fazendo, para ter o efeito surpresa a seu fator”, diz Roby Sourviron, da Despegar.

As histórias são inspiradoras e mostram, de dentro, os primórdios do capital de risco na América Latina. O ambiente de start-ups começou a se moldar na região com estas quatro empresas. A internet derrubou barreiras de entrada em vários mercados, mudou a dinâmica dos negócios no mundo. Veremos cada vez mais histórias como estas no futuro.

“Os Unicórnios locais saíram de garotos que estudavam em Stanford ou Harvard porque o processo criativo se nutre da interação com seus pares”, Andrés Freire, empreendedor e Ministro de Modernização, Inovação e Tecnologia da cidade de Buenos Aires, defendendo o entorno como fundamental para a formação de empreendedores.

“Já são 500 mil pessoas que vivem de vender na plataforma. Em 2015, tivemos 24 milhões de compradores e 8 milhões de vendedores. São sete transações e cinco mil buscas por segundo. O objetivo é democratizar o comercio e os pagamentos, è o que fazemos, nosso foco. E nos enchem de orgulho”. Marcos Galperin, sobre os impressionantes números do Mercado Livre.

“Vem da minha família, dos imigrantes. Há duas gerações, pegar um barco e aparecer na Argentina… que loucura! Isso é empreender! Meu avô paterno chegou da Rússia, não conhecia nada e viveu dois anos na Hospedaria do Imigrantes. Se repasso minha carreira, por mais que Mercado Livre tenha sido meu primeiro empreendimento, tudo o que e fiz foram coisas diferentes, ousadas. Me dei bem, mas ainda falta muito. ” Galperin, sobre sua convicção de que seu gene empreendedor é hereditário.

“Desde muito pequeno soube o que é ter um negócio e trabalhar como dono de algo. Na minha casa não se falava de outra coisa que não fosse “o que vai empreender””. Guibert Englebienne, da Globant.

“Sempre gostei do campo, a liberdade, a natureza, os cavalos. Esta sensação de controlar este animal tão grande para um garoto é incrível. Um pouco de controle, um pouco de descontrole. É o mesmo que senti depois quando comecei projetos como empreendedor. Você controla alguns fatores, mas muitos outros não. E esta vertigem, essa incerteza, faz com que todos os dias sejam diferentes”. Alec Oxenford, fundador da OLX e de outras empresas, como Arremate.com (DeRemate, na Argentina).

“Sempre o vi tomar decisões e acredito que observar como se comportava ativou meu gene empreendedor. Ele sempre trabalhou em empresas grandes e este podia ser o meu destino, mas aí veio a internet e mudou tudo” Roby Souviron, da Despegar, falando sobre seu pai, CEO de frigoríficos como CEPA e Quickfood.

“Eu sei porque a EBay não escolheu vocês, eu fui parte da equipe que os analisou: Equipe, dinheiro e suporte dos investidores”, foi assim que uma estudante de MBA de Harvard explicou a escolha da EBay em investir no Mercado Livre (momento chave para a companhia) e não em DeRemate, a primeira empresa de Alec Oxenford, e grande concorrente da empresa de Marcos Galperin.

“Fracassar é uma cagada. É um tema que está na moda, porém é horrível fracassar. Você chora. Acho ridículo esta exaltação. Além disso, muitas vezes você fracassa porque é ruim mesmo, não busquemos desculpas. Eu tenho medo ao fracasso, quem não tem? Claro que desta experiência ruim você tem que aprender, deve-se aprender para seguir adiante. Se não, o erro é maior ainda. Mas, não vejo nenhuma satisfação em fracassar. ” Martin Umaran, um dos sócios da Globant (mais sobre as falhas e o medo de falhar).

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